Prefiro no 2º turno Dilma x Marina; a Dilma x Aécio.

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Texto escrito por Bruno Cava, de grande valia no entendimento dos andamentos políticos para as eleições presidenciais de 2014.

Bruno Cava é escritor, pensador político e autor do blog http://www.quadradodosloucos.com.br/

Prefiro no 2º turno Dilma x Marina; a Dilma x Aécio.

Pelos seguintes motivos:

1) PSDB fora do segundo turno e Aécio politicamente enterrado em nível nacional.

2) Se Dilma ganha no primeiro turno, governo se tornará ainda mais convicto de seu projeto neodesenvolvimentista e de sua leitura fechada e até criminalizadora das jornadas de 2013, dos movimentos e coletivos autônomos.

3) Sou pela superação da democracia representativa, mas isto não pode ser uma posição abstrata. Ser contra a representação significa ser contra os arranjos materiais e as forças materiais que compõem o sistema político. No Brasil, isto significa 20 anos de bipolaridade PT x PSDB com fundo pemedebista, na esteira da expansão do capitalismo no Sul global.

4) Marina não é a superação da democracia representativa, nem exprime uma tendência mais à esquerda, nem representa as jornadas de 2013. Seria ingênuo e reducionista acreditar nisso.

5) Mas a candidatura de Marina ajuda a esboroar, pelo menos, o bloco bipolar PT x PSDB. Indício disso é o horror com que essa candidatura é encarada por aecistas e dilmistas linhas-dura. Indício disso, ainda, é que votos nulos e brancos e prováveis abstenções estejam migrando para o voto em Marina. Não vejo porque abrandar as contradições internas ao sistema político.

6) Eu acredito que existam energias de transformação cristalizadas no PT e no governo Dilma. Elas são minoritárias. Proporcionalmente é menos do que fora do PT, porém, como o PT é gigante, em números absolutos é algo relevante. Aécio x Dilma ajuda a manter essas energias cristalizadas, ao reproduzir esquemas mentais (fantasma da direita, menos pior, volta do FHC etc). Dilma x Marina, ao contrário, coloca os esquemas mentais em crise. Não é fácil, considerando o governo Dilma, recriar esses esquemas, sem revelar as próprias contradições (exemplo: chamar a Marina de fundamentalista revela a própria intimidade com a pauta religiosa e, ao mesmo tempo, o preconceito contra evangélico). Isso vai forçar uma requalificação da campanha. É possível que Dilma x Marina force essas energias cristalizadas a sair da zona de conforto e ter de mover-se, e entrar em fluxo. Algo de bom pode sair daí.

7) Por último, é claro que as eleições são secundárias em relação às lutas, não acredito que devemos se subjetivar por elas, tampouco temos muito tempo pra isso considerando outras urgências. No entanto, elas têm sim alguma relevância, ou pelo menos a maioria das pessoas acredita que tenha e vá dedicar alguma atenção nas eleições. Isso não é desprezível, para que não se arroga da posição de estar "acima das massas".
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Sequência: Mobilidade Urbana e Direito a Cidade

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O projeto Favelarte Rj nos presenteia uma série de videografias críticas que possuem o intento de debater a questão da mobilidade urbana e direito a cidade a partir das obras de preparação da cidade para os mega-eventos.

Os vídeos retratam entre outros a falta de participação popular, a crítica a manutenção no modelo rodoviarista (que já não é mais um paradigma seguido no mundo todo), o debate sobre as escolhas da gestão.

Vale a pena acompanhar o debate proposto pelo canal Favelarte RJ

Todo Mapa tem um Discurso

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             O subúrbio em transe de agosto teve o prazer de proporcionar a seus frequentadores mais uma grande exibição, desta vez o filme Todo Mapa Tem Um Discurso (http://todomapatemumdiscurso.wordpress.com) . É preciso dizer aos leitores, que faz muito tempo que estava desejoso de ver este filme, cujo título instigava conceitualmente.

              A partir de uma experiência cartográfica não demiúrgica, com narrativa ao mesmo tempo leve e didática, o filme põe em questão o mapeamento, o terrritório, a identidade e a potencialização de um determinada população, que vivendo a falsa dicotomia da cidade partida, elabora um levantamento espacial para além dos modelos tradicionais, explorando as realidades de apropriação e afetividade do lugar em que residem. O filme discute a cartografia e é ao mesmo tempo cartográfico, mapeando por narrativas, grupos que atuam na luta pela valorização do lugar e por direito a cidade.

            Concomitantemente, os sujeitos do lugar constróem seus próprios mapas e desconstróem a relação naturalizada que temos com as cartas, tiram-na das mãos do dominante, até então o único representante legítimo a mapear, e trazem para si este direito, inserindo nos mapas da cidade seus territórios, até então considerados como “vazios cartográficos”. O mapeamento cartográfico é “um agenciamento maquínico”, dinâmico e produtivo.

           O filme é por sua vez rico e imprensindível a quem se dedica a debater a cidade, suas apropriações e relações, também é fundamental aqueles que vivenciam as áreas periféricas, muitas vezes estigmatizadas pelo olhar unilateral que a descreve.

            Abrindo-se o debate, foi posto em questão a relação entre o mapeamento e a integração no sistema como uma problematização, devido a perda da singularidade e do direito ao nomadismo a partir do reconhecimento destes territórios. A questão centraria-se em compreender se a existencialidade de uma singularidade no vazio cartográfico invisível aos olhos maquínicos do sistema seria mais potente a ações revolucionárias ou rupturas mais bruscas que caminhem a novos paradigmas do que  a inserção do território como elemento de subjetividade e afetividade agindo nas lutas identitárias periféricas por melhorias.

           Em um olhar mais geral talvez o debate siga sem resposta definida, porém no que remete a favela e outras periferias, mesmo estando invisíveis no mapa, as mesmas nunca estiveram de fora dos processos da cidade, são parte intrinseca na relação de exploração e mais-valia urbanas, a favela é a cidade que a cidade esconde, e talvez por este perspectivismo, se tornar visível é uma ferramenta de luta.

           Neste sentido e nesta conjuntura, os mapeamentos periféricos se tornam um discurso próximo ao dois lados, ao mesmo tempo que serve ao poder, que enxergou o interesse no território para além do policialesco militar, serve ao morador local que a partir deste é capaz de se mostrar e se inserir geo-politicamente na cidade. E nisto o filme é muito feliz em mostrar a capacidade do morador se inserir socialmente a partir de sua própria narrativa, e não a partir da narrativa do poder. O mapa deixa de ser um objeto pensado por um sujeito e passa a ser um campo de relações e disputas de forças pulsantes onde o sujeito e o objeto se complementam na produção da própria vida.        

            Esta foi uma dentre as muitas reflexões possíveis que o filme nos deixa, por isso, este não é um filme passível de ser visto apenas uma vez, deve ser visto, revisto, degustado em cada momento e posto em debate a cada cena. Sem dúvidas recomendamos o filme a todos.

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